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Giovana Xavier – A intelectual mais influente do Brasil de 2018

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Você pode substituir mulheres negras como objetos de estudo por mulheres negras contando a sua própria história. Foto: Claudia Ferreira

Giovana Xavier – A intelectual mais influente do Brasil de 2018

Giovana Xavier, de 38 anos, é filha de Sonia Regina Xavier da Conceição, neta de Leonor Xavier da Conceição, sobrinha de Elenir Xavier das Dores e mãe do Peri. Professora, pesquisadora, ativista, feminista negra interseccional, amante da corrida de rua, da música e da dança.

Possui graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é mestra em História pela Universidade Federal Fluminense, doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas, com doutorado sanduíche na New York University e pós-doutorado pela UFF.

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É Professora Adjunta da Faculdade de Educação da UFRJ na cadeira de Didática Especial e Prática de Ensino de História. Idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras na UFRJ, autora da disciplina acadêmica “Intelectuais Negras: escritas de si, saberes transgressores e práticas educativas de Mulheres Negras” e coordenadora do Programa de Educação Tutorial Conexões de Saberes Diversidade na UFRJ (grupo de ensino, pesquisa e extensão composto por bolsistas universitários negros e cotistas). É docente do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE-UFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de História (Prof. Hist. UFRJ), onde leciona e orienta trabalhos acadêmicos sobre escravidão, pós-abolição, gênero, raça, feminismo, interseccionalidade e transgressões nos currículos. É pesquisadora associada do Grupo de Estudos Cultura Negra no Atlântico (Cultna/UFF), do Núcleo de Desconstrução de Gêneros (Degenera-UERJ) e do Laboratório de Estudo e Pesquisa em Ensino de História (LEPEH UFRJ). Como pesquisadora ativista, dedica-se à criação de metodologias e práticas educativas para a sala de aula, entre as quais se destacam: História Transgressora; Ateliês Biográficos Intelectuais Negras; Diários de Bordo – Narrativas Negras na Primeira Pessoa. É autora de diversos artigos acadêmicos sobre experiências, trabalhos e histórias de mulheres negras, junto com Juliana Barreto Farias e Flávio Gomes. Organizou o livro – Mulheres Negras na escravidão e no pós-emancipação (Selo Negro, 2006) – e assina a organização da coletânea – Histórias da escravidão e do pós-abolição para as escolas (EDUFRB e Fino Traço, 2016). Como intelectual pública, assina o blog Preta “Dotora” e é uma das colaboradoras das Blogueiras Negras e do Conversa de Historiadoras. A partir da compreensão de que a produção de saberes científicos é uma forma de ativismo, auto define-se como afroempreendedora acadêmica, uma vez que tem como foco contribuir para a formação acadêmica de intelectuais negros.

Atuação profissional

Consultoria, gestão de projetos e pesquisa em escravidão, pós-abolição, gênero, raça e reeducação das relações étnico-raciais, revisão textual, formação de professores e produção de textos para jornais, revistas e blogs nas áreas de especialidades citadas.

Trajetória como intelectual negra no Brasil

Giovana Xavier foi criada por uma família de mulheres negras que acreditaram e colocaram em prática o poder da educação como instrumento de liberdade e ascensão social. Sua mãe, Sonia Regina, foi a primeira da família a cursar uma universidade. Isso revela uma característica típica de famílias negras: o investimento na formação de um indivíduo (geralmente o mais novo) como projeto de liberdade e transformação coletivo. Essa marca está sempre presente nas histórias de estudantes negros, é um saber que evidencia os limites da meritocracia como conceito que explica as oportunidades desiguais que ocorrem e que dependem da identidade em termos raciais, de gênero, de classe e sexualidade.

Giovana foi socializada em um matriarcado que acreditou em sua evolução, estimulando-a a ler, escrever e aprender outros idiomas, motivada a ir além do destino esperado para as meninas negras no Brasil, o trabalho doméstico, ramo em que inclusive trabalhou por um tempo, quando foi arrumadeira de uma pousada na Ilha Grande, na adolescência.

Seu primeiro trabalho foi aos 11 anos, entregando panfletos “Vendo Ouro” na ponte do subúrbio do Méier, no Rio de Janeiro, onde foi criada. Até hoje tem trauma de receber esses papéis, por saber das violências e perversidades que rodeiam a juventude que desde cedo tem que “se virar”, encarando a rua como local de trabalho. Essas experiências de inserção no mercado informal somadas à oportunidade de ter estudado em uma escola “branca” de classe média, geraram um ponto de vista denso sobre como é estar em dois mundos e, do interior deles, criar o seu próprio.

As ferramentas da história e da academia como um todo precisam ser “empretecidas” na forma de uma ciência para o negro, conforme sinalizado pelo sociólogo Eduardo Oliveira e Oliveira e pela historiadora Beatriz Nascimento, nos anos 1980. Se entendendo como continuidade, essa é a missão de Giovana, definida por seus ancestrais. É isso que a motiva a seguir fazendo ciência diariamente.

Giovana Xavier se tornou professora doutora na maior universidade do Brasil, aos 34 anos. Realizou toda a sua formação em história (graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado) em universidades públicas distintas (UFRJ, UFF e Unicamp) e com acesso a todas as modalidades de bolsa de pesquisa (com doutorado sanduiche de um ano na New York University). O acúmulo dessas vivências torna sua trajetória representativa do poder das transformações sociais que são vivenciadas nas duas últimas décadas. Como desdobramento das conquistas, está envolvida em enumeras ações (projetos de pesquisa, aulas e orientação na graduação e na pós-graduação, produção de textos para revistas científicas, blogs e jornais, conferências, palestras etc.) que valem a pena estar na criação e coordenação do Grupo Intelectuais Negras da UFRJ. Trata-se de uma proposta pioneira no Brasil.

Há de tecer um espaço acadêmico gerido exclusivamente por mulheres negras e que questionem de dentro, as estruturas da supremacia branca. Estruturas estas que organizam a universidade desde a distribuição de recursos, até a produção de currículos e programas de curso, na sua maioria, centrados nas experiências de sujeitos brancos.

O racismo é uma estrutura que define lugares. Ser formada no mundo acadêmico branco e, colocar no centro da narrativa os saberes de mulheres negras como determinantes para a formação do Brasil, é sua maior conquista e também maior desafio, pois essa vitória não é permanente. É um processo que requer muita escuta, observação e habilidade para manutenção e fortalecimento, pois o negro segue em minoria nos espaços de prestígio e poder.

Esta é a importância de existirem projetos político acadêmicos individuais e coletivos, centrados nas experiências de mulheres negras, que são a maioria da população brasileira. O Grupo Intelectuais Negras da UFRJ, assim como a disciplina homônima que Giovana Xavier criou e ministra desde 2015 na universidade, são exemplos bem-sucedidos de criação e manutenção desse tipo de projeto. Professoras e estudantes (na sua maioria negros) passam um semestre lendo, debatendo e produzindo, única e exclusivamente a partir dos saberes orais e escritos de mulheres negras. Vêm daí ensinamentos muito potentes, como o do reconhecimento de avós, mães, irmãs, tias e vizinhas como intelectuais. A descoberta do gosto pela escrita, o despertar do desejo de seguir na carreira acadêmica. Essa transformação comprova que é possível e necessário produzir conhecimento a partir das histórias de negros e fazer isso por meio do reconhecimento do amor como ferramenta política de resistência e reinvenção. Esse é o sentimento que explica o fato de sua existência até hoje, a despeito de todas as violências e desumanizações que são impostas ao longo da história. O amor preto cura e reconhece o papel que a subjetividade do corpo negro desempenha no conhecimento científico que produz dentro e fora da academia, na forma de aulas, artigos, livros e palestras.

Giovana Xavier foi uma jovem negra trabalhadora que chegou na universidade no fim dos anos 90 (em um tempo sem cotas), conciliando estudo e trabalho em um país no qual o fazer intelectual é pensado como privilégio e não como profissão ou trabalho, ela tinha a expectativa de se formar e se tornar professora de história da educação básica. Começou a ministrar aulas aos 17 anos em um projeto social com meninos em cumprimento de medida socioeducativa. Tinha uma percepção que seu lugar era e deveria ser a escola pública, a qual aliás já estava bastante familiarizada, tanto por sua inserção como pelas memórias de infância. É filha de uma professora que dedicou 30 anos de sua vida a educar crianças na Escola Municipal Senador Camará, no bairro da Vila Vintém, o qual frequentou durante toda sua vida.

Ao mesmo tempo que a sala de aula escolar se colocava como destino para pobres que chegam ao ensino superior, Giovana teve a oportunidade de experimentar um sentido mais literal de universo que a universidade deveria representar para todos que por ela passam. No primeiro ano da graduação, foi convidada para ser bolsista de Iniciação Científica CNPQ do professor doutor Carlos Fico. Na mesma época, foi aluna do professor doutor Flavio Gomes, o maior especialista em escravidão e história dos quilombos no Brasil e é um negro. A pauta da representatividade é central na luta contra o racismo. Em paralelo ao trabalho de Flavio, outras pessoas na academia apostaram em Giovana, como a professora doutora Martha Abreu, o professor doutor Álvaro Nascimento e outros como a antropóloga doutora Olívia Cunha e a historiadora doutora Hebe Mattos. Todas essas pessoas ensinaram a transgredir a expectativa de se tornar professora da educação básica como um limite. Elas foram decisivas para que Giovana ressignificasse o diploma da graduação como uma etapa inicial, rumo à construção de uma carreira acadêmica sólida e respeitada.

Em 2012, defendeu “Brancas de almas negras, beleza, cosmética e racialização na imprensa afro-americana (EUA, 1890-1930) ”, uma pesquisa inédita sobre a cosmética negra no pós-abolição dos EUA, orientada pelo professor doutor Sidney Chalhoub. O destino esperado era de que Giovana se tornasse professora de história da América. Contudo, em 2013, fez concurso para a Faculdade de Educação da UFRJ e tornou-se professora do curso de licenciatura em história. Ser professora da educação básica pública abriu os caminhos para ser uma acadêmica que reforça o compromisso com a educação pública por meio da formação de futuros professores de história e pedagogas.

Profissão historiador

A maior dificuldade de ser historiador no Brasil é dedicar-se à pesquisa em um país em que 19,8 milhões de pessoas vivem a condição da pobreza (com recursos de até R$140 por mês) e em que oito pessoas concentram metade da renda de toda a população pobre, não é tarefa simples relacionada apenas a uma ideia universal e falsa da palavra “escolha”. Questões relacionadas à desigualdade racial e de classe interferem diretamente na ordem do querer, do que cada pessoa será “quando crescer”. É preciso encarar isso como uma premissa, se a vontade for de fato democratizar a produção e o acesso ao conhecimento no país.

A profissão do historiador exige uma disciplina rigorosa de escrita, leitura, pesquisa em arquivos (que, em geral, funcionam em dias e horários restritos), conhecimento de outros idiomas e poder aquisitivo para a compra de livros, realização de viagens e outros movimentos intelectuais. Isso não condiz com a realidade da maioria da juventude brasileira, que acaba sendo empurrada para o mercado informal ou para os empregos de bater cartão de ponto.

Diariamente se tem histórias de estudantes que desistem de estudar porque “precisam trabalhar”, são arrimos de suas famílias. Esse é o Brasil da casa-grande que é difícil transgredir. Ao mesmo tempo, essa avaliação macro não é determinante das experiências de todos que ingressam na carreira. As formas de ser historiador têm se ampliado. Há também os centros de pesquisa, de memória, os museus, as empresas de consultoria, o turismo étnico, a televisão. Todos esses são nichos do fazer histórico que têm se fortalecido no Brasil, embora as oportunidades ainda sejam menores do que as demandas.

Para quem pensa em trabalhar com história, é importante valorizar a construção de redes e as experiências coletivas da formação profissional. No caso da história, isso é muito importante, porque infelizmente a cultura hegemônica da academia ensina de formas muito perversas, que para se afirmar na área científica se deve primar pelo individualismo e pela competitividade.

Sendo assim, quem pensa em trabalhar com história é bom que comece desde cedo a dar vida e alimentar sonhos e projetos de transgressão. Ao chegar à universidade, investir em criar seus ídolos e suas referências. Para viver no espaço acadêmico, é preciso oxigenar a mente com pessoas e projetos que inspiram. É importante a busca de grupos de pesquisa e disciplinas que estimulem as formas de produção de conhecimento cooperativos. Procurar coletivos de estudantes universitários que ofereçam redes de apoio, que vão desde receber com um sorriso, dividir um pacote de biscoito, até escrever e revisar textos em grupo, aprender idiomas, potencializando as habilidades do eu em proveito de uma comunidade. Ao mesmo tempo, investir na formação individual é essencial. Reservar tempo para leituras e registros acerca de textos de diferentes gêneros (acadêmicos, literários, de blogs etc.), visitas a instituições de pesquisa e lugares de memória.

O historiador é o profissional que estuda o passado humano em seus vários aspectos: economia, sociedade, cultura, ideias e cotidiano. Investiga e interpreta criticamente os acontecimentos, buscando resgatar a memória da humanidade e ampliar a compreensão da condição humana. Ser mulher negra nesse espaço acadêmico é questionar as estruturas da supremacia branca, é resistência.

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